quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Artigo na Revista Devir

Ola amigos
Saiu um dossie sobre documentário Brasileiro na Revista Devir. E dentro do Dossie foi publicado um artigo sobre "Jesus no Mundo Maravilha"
Fiquei super feliz, pois é uma revista mega prestigiada e esse artigo mostra que a provocação de Jean Claude funcionou: "Jesus..." virou pauta para os debates sobre documentário brasileiro. A revista tem artigo só sobre fera: Coutinho, Salles, Tonacci... E "Jesus..." tem seu espacinho. Muito legal!
Também na Socine 2009 (que acontece agora em outubro) teve duas comunicações que vão debater "Jesus...".

Segue abaixo o artigo do Cezar Migliorin na revista Devir.


Título: Jesus no mundo maravilha, uma carta aberta ao realizador Newton Cannito
Autor: Cezar Migliorin


Resumo: Carta Aberta ao realizador Newton Cannito a propósito de seu documentário Jesus no mundo maravilha (2007), produzido via DOCTV. Nesta carta discuto as estratégias formais e o lugar do realizador diante de seu objeto. Trata-se de um filme revelador da busca, por vezes desesperada, em se fazer documentário.

Palavras-chave: documentário brasileiro, escritura e documentário, mídia.


Meu caro Newton Cannito,

Teu filme Jesus no mundo maravilha é monstruoso, com as seduções que podem ter os monstros.
Se aqui dedico algum tempo a te escrever é pelo desejo de compartilhar contigo os incômodos e o prazer que o filme me causou, de certa maneira me identifico com a tua violência no filme. A ironia, a manipulação explícita, a distância do bom-mocismo tão freqüente no documentário são aspectos sedutores. O documentário tornou-se (mais uma vez) um espaço para a pureza das boas intenções. Um problema que transforma os filmes em cenas consensuais e domesticadas. Em diversos casos assumimos o documentário moderno como farsa; das entrevistas apenas escutas passivas e sem compartilhamento, dos encontros aceitamos o encantamento ou a experiência pessoal e não coletiva, das múltiplas vozes nos basta a multiplicidade e não a diferença, da voz do outro encontramos a verdade voyeurística no lugar da fabulação, a reflexividade cede ao anedótico e à auto-indulgência. Permita-me então esta carta pública, incentivada pelas palavras de Jean-Claude Bernardet; “De duas uma: ou ignoramos a existência deste filme (e aí tudo bem), ou não a ignoramos. Se não a ignorarmos, Jesus no mundo maravilha passa a ser uma referência inevitável no panorama atual do documentário brasileiro”.
Três ex-policiais, um palhaço e um casal sustentam teu filme. Dois dos ex-policiais, Lúcio e Pereira, são defensores de métodos violentos contra bandidos (o que inclui suspeitos). O terceiro policial se “converteu a Jesus”, o palhaço passa o filme a negociar sua participação no próprio filme e o casal chora a perda de um filho, negro, morto pela polícia.
Na primeira seqüência, ainda no prólogo, descobrimos um ex-policial que entrou na polícia porque queria “caçar bandido”. “E todos que eu vi eu cacei”, diz ele. Lucio precisava vingar a mãe. Na segunda seqüência uma mãe fala do ódio que tem pela polícia. Seu filho fora morto por um policial, de maneira gratuita. Chorando ela finaliza: “Eu quero justiça para o meu filho e o que fizeram com ele”. Depois desses dois depoimentos que demarcam os dois lados mais explícitos do filme, ouvimos o som grave de uma tuba e o fundo branco do estúdio em que a mulher se encontra se funde com um plano fechado da boca da tuba. Nos três primeiros minutos teu filme explicita o tom e desde ali me captura. Aquelas falas não são novas, conhecemos a lógica dos policiais, conhecemos o imaginário de vingança que atravessa esse universo, assim como somos constantemente confrontados com imagens e sons de pobres que sofrem. O que há de diferente ali é a tuba; som cômico e referência ao circo. Com a tuba, o parque de diversões deixa de ser o lugar em que o ex-policial trabalha para se tornar “personagem”, comentário sobre o que estamos vendo. Parece-me que esse é o tom do teu filme; o confronto e o circo, o embate e o parque de diversões.
A tuba provoca uma distância em relação à lógica que tu já vinhas construindo; a da oposição. Como sabes e deixas claro no filme, colocar personagens com visões de mundo divergentes em um documentário não é algo que se faz sem risco. Com muita facilidade sou levado a assumir uma das posições propostas. Os personagens perdem em complexidade e se vêem reduzidos a defensores de suas posições. As posições dicotômicas tendem a eliminar o outro lado, o filme se torna um jogo em que se aceita tudo que vem de um lado e se recusa o que vem de outro. A conseqüência maior desse efeito é a quase impossibilidade de sermos deslocados de nossos próprios lugares subjetivos. Entro no filme com uma determinada visão de mundo, e como tenho que tomar partido no filme acabo por reforçar meu lugar original baseado em nomes próprios, estáveis e identitários. Essa cristalização de lugares tende a ser ainda mais forte se os personagens escolhidos são, eles próprios, símbolos de uma determinada posição subjetiva de mundo. Mas, no caso do teu filme, há algo diferente.
Com exceção do palhaço, que gostaria de comentar mais tarde, a escolha dos personagens segue a lógica arquetípica, eles são donos de opiniões divergentes e por vezes antagônicas sobre a violência e o combate à criminalidade, mas não é pela dialética entre essas posições que o filme irá se construir. A tuba é apenas o início de uma construção freqüentemente cínica em que com a montagem e com a música tu impedes que os discursos se confundam com o filme, é uma hipótese. Esses elementos distanciam aquelas falas do filme, mas corres o risco de impossibilitar também que elas se constituam como falas sobre as quais devamos atuar, pensar. Não sei se te lembras, mas o parque de diversões era um cenário freqüente no expressionismo alemão. Também ali conviviam os sonâmbulos – aqueles que para Kracauer serão responsáveis pela manutenção das máquinas de morte nazista – e os fascistas promotores da infantilização que no parque encontra possibilidades infinitas para o caos dos instintos possibilitando uma distância da civilização. Conclui Kracauer no clássico De Caligari a Hitler: “O parque não é liberdade, mas anarquia gerando Caos” (KRACAUER, 1988: 90). Eis a sedução infantil do parque, espaço carnavalesco de moral instável. Não é esse um problema maior do cinismo, esse desprendimento absoluto de qualquer virtude moral? O desprendimento do filme em relação ao que ouve e vê naquele espaço lúdico é tão grande que não preciso me relacionar com ele; nesse sentido, o parque é fundamental. No parque de periferia tu mergulhas cada imagem e cada entrevista em um universo propenso ao jogo, ao exagero; deslocado da realidade, como se o que fosse dito e ouvido ali não guardasse nenhuma continuidade com o exterior, com as vidas mesmo. Ali é possível a performance de si em direção ao que cada personagem acredita ser o melhor de si. Matar mais, ser o mais rápido no gatilho, o mais engraçado – no caso do palhaço. O parque parece separado do lugar em que as pessoas são julgadas, em que pese uma responsabilidade, o que vale para o próprio filme.
Li uma entrevista tua em que dizes que os policiais confiaram em ti. Que grande risco esse. Talvez eu apenas esteja querendo paternalizar excessivamente os personagens, mas creio que o problema do documentário é maior, não se trata apenas de confiar ou não, trata-se de um problema de responsabilidade. Quanto maior a confiança, maior a responsabilidade. Há alguém que quer falar, mesmo que isso signifique colocar o personagem em risco, no mínimo de ser preso, no risco da vida que existe depois do filme; tensão decisiva do documentário. Às vezes, ao outro nada mais resta a não ser a fala, aprendemos isso com Shoah (Lanzmann, 1985) O fato de o personagem ter confiado torna esse problema ainda mais grave. O que faz o filme? A confiança dos personagens está intrinsecamente ligada à forma como tu te confundes com os personagens, como interpretas um papel importante para que o filme aconteça. Todo documentário que se preze é um encontro entre mise-en-scènes, nesse sentido tu fazes a cena que interessa ao filme e isso é parte do documentário. Mas, como soa estranho ouvir o policial dizer que já matou entre oitenta e cem pessoas... Como pode dizer isso em público, como pode estar em liberdade? Não sei como foi para ti manter essas falas auto-incriminantes no filme, mas talvez elas só fossem possíveis no parque de diversões e na escritura – com tuba – que tu fazes. Quando o defensor dos direitos humanos começa a falar sobre a relação entre a atual violência da polícia e a ditatura, o que poderia servir de contraponto ao discurso dos policiais, tu fazes a voz dele desaparecer sob acordes de Schubert – ou seria Mozart?
Por todos esses motivos, o filme acaba por inviabilizar que qualquer dos discursos tenha força suficiente para que possamos aderir. Nenhum dos “lados” apresentados pelo filme tem consistência suficiente para se tornar um discurso que mereça adesão, rechaço ou tomada de posição. Porém, e aqui fica minha dúvida, meu questionamento mais sincero; enfraquecidos pelo tom do filme, esses sujeitos deixam de ser representativos de lugares sociais já estabelecidos: o policial assassino, a mãe que sofre, o defensor dos direitos humanos? No lugar de complexificar os discursos e os personagens, essas estratégias de desmonte não acabam por reforçar os lugares e as lógicas de cada um desses discursos? Apesar da distância em relação ao modelo sociológico tradicional, como analisado pelo Bernardet (Cineastas e imagens do povo, 2003), o filme não traria uma rearmonização entre personagem e tipo sociológico – a vítima, o policial violento, o defensor dos direitos humanos. Uma rearmonia desencantada, descrente e irônica, bastante diferente portanto desse outro modelo em sua condição de possibilidade e escritura, mas próxima em sua nula potência política.
Teu filme me fez pensar nos debates dos anos 60 e 70, da impossibilidade da representação, da dificuldade em se achar a palavra justa sobre o outro. Como sabemos, foi esse movimento que levou o documentário a experiências radicais de pura negatividade, de explícita separação entre imagem e objeto, como se nenhuma linha ou conexão fosse possível. Certamente teu filme não retorna a esse momento iconoclasta, entretanto ele está também distante de um humanismo clássico que parte, antes de tudo, da amizade pela palavra do outro. Creio que o efeito mais perturbador do filme está justamente aí, na freqüente descrença que tu tens pelas palavras de teus personagens. Não que elas não sejam verdade, que não exprimam formas de estar no mundo, com suas causas e lógicas próprias. A descrença está na possibilidade das palavras operarem no real, de fazerem algum efeito na pólis, uma descrença que contamina a palavra deles e o próprio filme. Por isso elas podem ser confrontadas com o carrossel, com a trilha de circo, com os jogos de guerra, com os efeitos cômicos que utilizas. O risco que me toca em teu filme está na possibilidade de ele ser uma escuta do outro e ao mesmo tempo fazer essas falas se transformarem em ruído, facilmente substituível por outro ruído. Mas, me pergunto, há escuta na tipificação? Uma pergunta genérica, mas fundamental para o documentário.
Na já mencionada entrevista, justificas tua postura “contaminada pelo objeto” lembrando o discurso indireto livre, criado por Pasolini e longamente trabalhado por Deleuze. Entendo esse discurso de maneira diversa. Ser simpático com o policial na filmagem – não no filme – e compartilhar seu ponto de vista é uma estratégia que utilizas. Para Deleuze, pelo que eu entendo, o discurso indireto livre exerce uma função fundamentalmente desestabilizadora da linguagem. “A narrativa não se refere mais a um ideal de verdade a constituir sua veracidade, mas torna-se uma ‘pseudo-narrativa’, um poema, uma narrativa que simula, ou antes, uma simulação de narrativa” (DELEUZE, 2005: 181). No caso do teu filme, trata-se de uma estratégia, não condenável em si, mas que entendo que funciona de maneira contrária, ou seja, na estabilização dos discursos dos personagens. A simulação não é da narrativa, mas tua. A narrativa, pelo contrário, depende do discurso verídico dos personagens. Creio que só a partir dessa estabilização dos discursos o filme pode enfraquecê-los – o que os torna também possíveis e suportáveis. No discurso indireto livre há uma potencialização das falas e dos discursos que se faz justamente no momento em que ele não pertence mais a um sujeito, em que o ideal de verdade subjetiva se desfaz e, nesse sentido, acho que tua estratégia é outra.
Caro, antes de fechar esta que seria uma breve carta sobre um filme instigante, queria voltar ao personagem do palhaço, merecedor de atenção especial. Personagem intempestivo, dos mais singulares e reveladores do documentário brasileiro, revelador de muitas características da relação da imagem com o mundo contemporâneo. Sua entrada em cena, que tu exploras tão bem, fazendo um flashback, para que pudéssemos entender aquele gesto de quem tenta, a todo custo, ocupar algum canto “não utilizado do quadro”, me lembrou outra entrada em cena, também reveladora das dificuldades do documentarista contemporâneo.
Por que eu estou te entrevistando?, tu perguntas ao Palhaço Maravilha. Ora, essa é uma pergunta que tu deves responder! Mas o palhaço não tinha o tempo da montagem para pensar sua resposta e, sobretudo, estava submetido ao filme. Tentar responder essa pergunta duríssima já é, em si, a maneira dele colocar-se em total desvantagem em relação ao filme, o embate ali se torna muito desproporcional. – Aí você me pegou, diz Maravilha. Desde o primeiro momento ele percebe que tu o “pegaste”, mas não desiste. Decide continuar no filme mesmo pego, submetido.
Nas duas seqüências seguintes com Maravilha, temos dificuldade em entender o estatuto daquelas imagens. Maravilha faz pequenas cenas que são editadas com o off dos policiais. Por um lado os policiais destilam o ódio à “bandidagem”, por outro Maravilha faz suas palhaçadas sem graça. Tua relação com Maravilha parece mimetizar a relação dos policiais com os bandidos. Está aí a tua resposta ao porquê de ele estar sendo entrevistado.
Eu sempre achei bandido ridículo, diz Lúcio, ao mesmo tempo que vemos Maravilha em uma situação patética. Não porque é palhaço, mas porque não percebe o poder ao qual está ali sendo submetido, um poder da imagem e da mídia representado naquele momento pelo filme. O filme se interessa pelo palhaço e ele tem interesse em estar no filme, mas, quanto mais ele se submeter à lógica da fama, do estrelato e das celebridades, melhor para o filme. O filme deve parecer poderoso, deve parecer um filme de ficção, deve se confundir com a própria mídia que Maravilha deseja. Jesus no mundo maravilha precisa perecer o que não é para que Maravilha esteja ali da maneira como aparece. Com Lúcio, o ex-policial, e com o filme, o palhaço Maravilha se torna a vítima.
Você queria estar no filme? “Conseguiu!”.
Como um lutador tu respondes ao palhaço: – Eu não te chamei para estar aqui, mas se você deseja... Então tome essa e mais essa. Tu vais assim testando os limites daquele homem banal. Em uma das mais impressionantes seqüências do documentário contemporâneo, o filme nos mostra a negociação entre vocês. Montando paralelamente, tu colocas o estranhamento de Maravilha diante do papel que está fazendo e Maravilha com um revólver na mão, Maravilha empurrando – durante muito tempo – um brinquedo do parque, para logo depois reclamar:
– Cinqüenta vezes a mesma coisa? Eu não gosto de empurrar brinquedo! Eu não sou retardado.
– Não?
Minha tentativa era te imaginar na ilha de edição, dizendo aquele “não” mais uma vez. Entendo que no momento da filmagem havia ali uma performance a ser feita. Mas é na montagem que tu afirmas que ele é retardado, que tu reiteras a violência, que tu reafirmas tua agressividade e desprezo por aquele homem. Se há uma mistura de discursos, ela está na indiscernibilidade entre a lógica do policial em relação ao bandido e a tua em relação ao ladrão da imagem; o palhaço que invadiu teu quadro. E aqui talvez tenhas razão, o discurso indireto livre se efetiva. Enquanto o bandido que mata e rouba deve ser morto, segundo a lógica de Lúcio e Pereira, o palhaço que invade o filme deve ser destruído com o próprio filme, deve ser massacrado com a imagem em que tanto deseja estar. E chegas ao final do filme com o palhaço compartilhando a mesma moral dos ex-policiais: quem deve morrer é bandido, e não cidadão de bem! Chegamos a um consenso que reúne, assim, os três discursos.
– Eu quero meu retorno em cima de programas de televisão, é tudo, completa Maravilha.
Se o palhaço é julgado por sua lamentável veneração aos meios de comunicação de massa, porque os ex-policiais não merecem o mesmo tratamento? Por que esses não são enfrentados? Talvez porque os policiais já sejam fracos demais, alvos demais. No filme os ex-policiais podem brincar contigo de guerra e de tortura, com o palhaço não. Com ele não se brinca, ele deve ser patético sozinho. Ainda humilhado e submetido, talvez esse pobre e torpe palhaço seja mesmo o que resta de desestabilização. Pois talvez seja na maneira como a lógica dos policiais contamina o filme e tem o palhaço como vítima que esteja o efeito monstruoso do filme. Há uma vontade de estar longe daquilo tudo, do filme inclusive. Uma distância ainda carente de ação, apenas nos colocando em contato com a monstruosidade que encarnas.

Meu cordial abraço,
Cezar Migliorin
Rio de Janeiro, abril de 2009.


Referências Bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. Moyens sans fins: notes sur la politique. Paris: Payot et Rivages, 2002.

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mille plateaux. Paris: Les Éditions de
Minuit, critique, 1980.

DELEUZE, Gilles. Imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.

KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler, uma história psicológica do cinema alemão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

RANCIÈRE, Jacques. La mésentente: politique et philosophie. Paris: Galilée,
1995.

Português
Resumo: Carta Aberta ao realizador Newton Cannito a propósito de seu documentário Jesus no mundo maravilha (2007), produzido via DOCTV. Nesta carta discuto as estratégias formais e o lugar do realizador diante de seu objeto. Trata-se de um filme revelador da busca, por vezes desesperada, de fazer documentário.
Palavras-chave: documentário brasileiro, escritura e documentário, mídia

English
Abstract: Open Letter to Newton Cannito, director of the documentary Jesus no mundo maravilha (2007), produced by DOCTV. In this letter, I discuss the formal strategies of the film and the place of the director towards his object. The film is a key example of the search, sometime desperate, on doing documentaries.
Key-words: Brazilian documentary, documentary writing, media.

Français
Résumé : Lettre ouverte à Newton Cannito, réalisateur du documentaire Jesus no mundo maravilha (2007), produit par DOCTV. Dans cette lettre je discute les stratégies formelles et la place du réalisateur envers ses objets. Le film est révélateur de la recherche, parfois désespérée, pour que le documentaire se fasse.
Mots-clefs : documentaire brésilien, écriture du documentaire, média.

O autor: Cezar Migliorin é pesquisador, realizador audiovisual e ensaísta. Membro do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e professor adjunto do Departamento de Cinema e Audiovisual. Doutor em Comunicação e Cinema (Eco-UFRJ / Sorbonne Nouvelle, Paris III).

Endereço eletrônico: migliorin@gmail.com

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bernardet consagra "Jesus..."

Jean Claude Bernardet escreveu uma resenha sobre "Jesus no Mundo Maravilha" em seu blog. (www.jcbernardet.blog.uol.com.br). Não posso negar que para mim isso é objeto de grande orgulho. O primeiro livro que li sobre cinema foi de Jean Claude e era sobre Cinema e História. Eu dava aula de História e descobri esse livro. Fui cada vez mais para cinema, sempre influenciado por sua obra. Em documentário o livro "Cineastas e Imagens do Povo" foi fundamental em minha formação.
Segue a análise dele para o "Jesus no Mundo Maravilha"

Jesus no mundo maravilha

Jesus no mundo maravilha é um filme alegre e divertido. Talvez seja este o seu maior pecado.
Quando acabei de assistir a Jesus no mundo maravilha estava atônito. Numa grande perplexidade. O casal cujo filho foi assassinado por um policial, policiais expulsos da PM por, digamos, comportamento irregular, um ex-PM que confessa mais de 80 mortes. São temas graves e urgentes que pedem tratamento sério: todos nós somos contra a violência e a arbitrariedade da polícia, e esperamos contra ela um discurso ao qual possamos aderir, um discurso consensual.
Ora, não é o que acontece. Jesus no mundo maravilha é um docufarsa. E isto é chocante e bagunça aquilo em que acreditamos. Declarações favoráveis à pena de morte acompanhadas por uma alegre marchinha de Mozart ou a trilha de western-spaghetti e mais simulações engraçadas (ou espantosas), e brincadeirinhas de montagem e mais uma moralidade estupefaciente para encerrar o filme como se encerra uma fábula: é um escândalo. A estética do escândalo tem a virtude de nos obrigar a repensar os nossos sistemas de valores (cinéticos e outros), a nos repensarmos a nós mesmos. É vivificante como uma ducha fria.
Este filme expressa uma sociedade que não acredita em seus valores, que não acredita em suas instituições. Basta ver como são tratados os engravatados de alguma ONG ou comissão de direitos humanos. É duro de engolir: Jesus no mundo maravilha é a expressão de uma sociedade que entrega a proteção de suas crianças a assassinos.
Com suas simulações, paintball, cavalinhos de pau que relincham, com todos os seus artificialismos – como reunir num parque de diversões os pais do adolescente assassinado com ex-policiais expulsos da PM, incluindo um pastor evangélico – este filme é a expressão de uma sociedade do espetáculo. E esta sociedade é atravessada por um olhar melancólico.
De duas uma: ou ignoramos a existência deste filme (e aí tudo bem), ou não a ignoramos. Se não a ignorarmos, Jesus no mundo maravilha passa a ser uma referência inevitável no panorama atual do documentário brasileiro.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Jesus no DOC BLOG, por Patrícia Rebello

Mais um crítica sobre o Jesus no Mundo Maravilha. Esse post foi originalmente postado no DOCBLOG, do jornalista Carlos Mattos. Essa crítica foi escrita pela colaboradora Patrícia Rebello, no dia 20 de setembro, logo após a pé estréia carioca, que aconteceu na FACHA. Para ver o docblog é só clicar aqui. Abaixo, a íntegra do texto da Patrícia.

MUNDO LOUCO MUNDO

Jesus no Mundo Maravilha
por Patrícia Rebello

"Ele está matando o Tempo! CORTE-LHE A CABEÇA!" ordenou a Rainha de Copas aos guardas. E desde esse dia, o Chapeleiro Maluco – que, para o bem da literatura não perdeu a cabeça – e seus amigos, Arganaz e Lebre de Março, estão sempre tomando chá, porque por ter o Chapeleiro brigado com o Tempo são sempre 6 horas da tarde. Ao menos foi isso o que Alice encontrou no tal País das Maravilhas.

A cena mais famosa do livro de Lewis Carrol não me saía da cabeça enquanto assistia ao documentário Jesus no Mundo Maravilha. Não por simples associação de títulos, mas porque ao criar uma lógica aparentemente normal para um discurso aparentemente louco, o filme de Newton Cannito descreve o fato de que um mundo louco pode se viabilizar como normal.

Jesus no mundo Maravilha concebe um debate ético sobre ideais e condutas que levaram três homens a se tornar – e a deixar de ser - policiais. Jesus, Lúcio e Pereira, após uma vida inteira dedicada à Polícia Militar, foram exonerados. O filme trata de suas experiências, condutas, dificuldades e observações sobre um ‘estado de coisas’ da corporação. Mas o filtro por onde passam essas estórias, a interferência do diretor sobre os discursos é o grande diferencial aqui. Cannito manipula, engendra essas vozes em uma estética ousada, deslocando dramas e falas de seus ambientes e isolando-os numa locação pra lá de controversa: o filme se passa em grande parte num parque de diversões. Dessa opção, surgem personagens que inspiram tanto atração quanto repulsa.

Jesus, pai de duas filhas pequenas, e Lúcio, que buscou na profissão vingança para a morte da mãe, confessam logo no começo do filme que ser policial significava a concretização de um ideal de infância; Pereira enxergou na profissão uma licença para fazer justiça com suas próprias mãos. Na base destes discursos está uma idealização lúdica da Polícia, uma imagem mais ligada às mitologias dos quadrinhos e narrativas de ficção que a uma legislação judiciária. A pegada do filme é exatamente essa. Um parque de diversões como cenário de violência é tão surreal quanto o ‘discurso de criança’ aprisionado nos corpos daqueles homens. Isso faz de Jesus um documentário mais ficcional que qualquer ficção, onde, ao contrário daqui, o esforço está em criar uma impressão real. Se não compactuarmos com essa falta de lógica, com a forma como relações e pessoas estão sujeitas a essa falta de sentido, não conseguiremos embarcar no universo ilustrado por Cannito.

Mas essa ficção desmorona quando se percebe que existe um outro lado que sente na carne que esses homens, que pensam e agem como crianças, continuam sua performance fora da tela. É duro perceber que fora do filme, nem todo efeito visual é tão engraçadinho como parece. E aí, quem cai na real é o público.

Esse ‘outro lado’ toma forma nas falas de Lucimar Pereira e Eremito Santos, pais de Luís Francisco, assassinado por policiais quando saía de casa, pelo simples fato de ser negro, diz a mãe. Esses dois personagens pertencem a um outro universo, não habitam o parque de diversões, mas depõem para uma câmera tendo por trás um fundo neutro. Suas falas, duras e transbordantes de dor, contrastam com as falas picarescas dos ex-PMs, ‘maquiadas’ pelo diretor ao incorporarem efeitos especiais, músicas e ambientes das locações do documentário. Na última sequência do filme, Cannito simula um tribunal, onde esses dois lados são confrontados. Às secas palavras de Lucimar e Eremito correspondem os olhares baixos e deslocados dos ex-PMs, como crianças sendo repreendidas.

Jesus no Mundo Maravilha é crítica ácida e sarcástica a um regime de coisas do mundo, sem o menor comprometimento com qualquer moral politicamente correta. O diretor se arrisca em metáforas invasivas e algumas vezes maliciosas; não busca no discurso dos personagens a força do filme, mas sim ao sublinhar nas falas a ‘loucura’ daquilo que se relata como se fosse coisa simples e banal. Chutando o pau da barraca, rindo do que não se ri, seduzindo seus personagens ao colocá-los sob o foco da câmera, dando linha para a perpetuação da ilusão que ela produz, a força do filme surge mesmo é na forma de uma crítica mordaz à idéia de que uma imagem possa produzir qualquer tipo de verdade.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Jesus no Terra Magazine


Entrevista com o diretor Newton Cannito feita pelo Daniel Bramatti.

Confiram clicando aqui!

Ou lendo abaixo:

Em filme, ex-policial diz ter matado mais de 80

Sexta, 21 de setembro de 2007, 15h45


Daniel Bramatti

Jesus, Lucio e Pereira, ex-integrantes da Polícia Militar de São Paulo, falam abertamente sobre tortura e extermínio de "bandidos". Lucio diz até ter perdido a conta de quantos já matou, mas estima terem sido "mais de 80 e menos de 100". Pereira, evangélico fervoroso, destaca que sempre dava um minuto para que suas vítimas rezassem antes de matá-las.

Os três são os personagens principais de "Jesus no Mundo Maravilha", documentário que representa o Brasil na série DOCTV Ibero-América e que será exibido nesta sexta-feira, às 22h40, pelas emissoras da rede pública de TV, entre elas a TV Cultura e as TVEs.



O filme é um mergulho na mentalidade justiceira - e nada legalista - da polícia brasileira. Por coincidência, será exibido no mesmo dia em que a Folha de S.Paulo revela indícios da existência de um grupo de extermínio formado por policiais militares em Osasco e que O Estado de S.Paulo informa que a PM paulista mata um civil por dia.

"Eles os policiais sempre acharam que a lei era uma coisa ineficaz e que, para resolver a questão da violência, são necessários heróis que se sobreponham à lei. Nisso, aliás, eles são como personagens de cinema. São como Charles Bronson, Batman e outros tipos cinematográficos. Todos querem justiça. Mas justiça além da lei", disse o diretor do documentário, Newton Cannito, em entrevista a Terra Magazine.

O "mundo maravilha" do título é um parque de diversões onde dois dos ex-policiais atuam como seguranças. Neste cenário, armas aparecem como brinquedos - o que pode ser lido como uma metáfora da falta de seriedade com que o país encara a questão da segurança.

Newton Cannito, um dos roteiristas da série "Cidade dos Homens", arranca as declarações mais polêmicas de seus entrevistados ao criar uma situação de camaradagem com eles, que os deixa totalmente à vontade. O tom crítico do filme é dado pela edição, que contrapõe o discurso pró-extermínio de bandidos com o lamento de pais que tiveram um filho assassinado por um PM.

Leia a seguir a entrevista:


Como você descobriu os personagens do documentário?
Via pesquisa de casos de ocorrências policias com vítimas. Entrevistamos vários policiais na ativa. Um deles chegou a nos mostrar um book de fotos dos corpos que ele matava. Tínhamos gravado isso, ele queria falar e dar entrevista. Mas, se falasse, seria demitido da Polícia Militar. É que a corporação, num gesto hiperdemocrático, impediu todo policial da ativa de dar entrevista para o filme. Aí tivemos a idéia de entrevistar policias exonerados. Um nos levava a outro. Jesus era amigo de um dos que entrevistamos. Lucio trabalhava com ele no parque. E assim por diante. O que fiz foi compor um leque com uma variedade de personagens e perfis diferentes entre Lucio, Pereira e Jesus.


Qual foi a reação dos ex-policiais ao ver o filme?
Muitos que viam o filme antes deles diziam que eles odiariam. Eu estava na dúvida do que eles achariam. Mas eles adoraram. Lucio, por exemplo, disse que fui correto com ele. Só botei o que ele disse. Eles percebem tudo. Lucio disse que fiz duas coisas que ele não gostou muito. Uma é um corte em que, logo depois de ele dizer quantas pessoas matou, entra Eremito (o pai da vítima) e pergunta: "Um policial desses é formado?". Ele percebeu que esse corte induz o público a pensar que Eremito falava dele. Outra coisa é que a primeira parte do filme dá a impressão de que foram Lucio e Jesus os algozes do filho de Lucimar, o que não é verdade. Mas ele não achou isso grave, pois depois o filme explica que não foram eles.

Resumindo: eles entendem tudo. Entendiam desde o início que estavam cedendo sua imagem e seus personagens. E sabiam que o problema seria a edição. Mesmo assim decidiram mostrar sua imagem com coragem e contra a vontade de advogados e família. Pois eles têm muita vontade de contar sua história. Eles confiaram em mim e gostaram do resultado.


"Hoje, infelizmente, o Estado não quer que a gente faça nada além do que está na lei." Dita por um dos ex-policiais, talvez essa seja uma frase-síntese do filme. Poderia comentá-la?
Sem dúvida, é uma frase-síntese que mostra como pensa a corporação policial. Ela surge de uma cultura de separação entre a polícia e a sociedade. O que me impressiona é que, ao virar policiais, eles se afastam de seus antigos amigos civis. Só têm amigos policiais. Isso tudo gera uma distância entre eles e a "sociedade". E entre eles e a "lei". Eles sempre acharam que a lei era uma coisa ineficaz e que, para resolver a questão da violência, são necessários heróis que se sobreponham à lei. Nisso aliás, eles são como personagens de cinema. São como Charles Bronson, Batman e outros tipos cinematográficos. Todos querem justiça. Mas justiça além da lei.


Você cria situações de camaradagem com os policiais, ri quando eles defendem tortura, por exemplo. Essa técnica de entrevista não cria um dilema ético?
Ao fazer cinema tem uma técnica chamada discurso indireto livre. Pasolini a definiu no cinema de poesia. Nela o narrador se contamina pelo objeto narrado. É o que fez Dostoievski em "Crime e Castigo", por exemplo. Ou Flaubert em "Madame Bovary". Essa contaminação é de todas as formas. Inclusive na entrevista. Sem dúvida eu me deixei contaminar pelo objeto. Foi intencional.

Algumas pessoas podem até pensar que o diretor é mau-caráter. Assim como alguns leitores podem pensar que Flaubert é realmente a Madame Bovary. Por mim, tudo bem. É o risco de tentar fazer arte. Não ligo que as pessoas pensem que o diretor não é bonzinho. Não é função do artista parecer bonzinho. Acho mais vantajoso ele expressar a sociedade contemporânea. Sinceramente, acho que consegui. Se as cenas em que a equipe se diverte com o policial incomodarem o espectador - como sua pergunta me induz a pensar que incomodou -, consegui meu objetivo. Pois apesar de o narrador ter aderido ao discurso dos personagens, o público não irá aderir. O público ficará chocado e terá uma postura crítica em relação ao discurso dos policiais militares.


Os policiais pró-tortura e esquadrão da morte reclamam de mudanças na polícia. Dá para concluir que algo está mudando para melhor?
Sim. Está mudando para melhor. Ainda há muito a ser feito, mas está mudando para melhor. A formação dos policiais tem melhorado, tem incorporado a fundamental disciplina de direitos humanos e tem tentado conter essa mentalidade de guerra.

Mas ainda há muito a ser feito. Particularmente não vejo por que a polícia continuar sendo militar. Ser militar gera a lógica de guerra, gera perseguições entre oficiais e cabos, gera isolamento da população civil que acaba levando a violência policial.

Há coisas a atentar também no que os policiais das antigas dizem. Eles dizem que agora as penalidades são tão grandes que isso acabou gerando uma nova geração de policiais burocráticos. Policiais que não vão à perifeira, pois lá tem violência. Policiais que vêem um bandido assaltar e desviam seu carro. Policiais que não querem ser policiais.

Não pesquisei o suficiente para saber a quantidade de policiais assim. Mas é uma questão importante. Não podemos confundir cuidado em relação ao direitos humanos com inação da polícia.


Um debate "direitos humanos X morte aos bandidos" é quase ridicularizado pela trilha sonora do filme. Foi essa sua intenção? É um debate inútil?
Não. É um debate fundamental. É a única saída. Infelizmente o debate sobre direitos humanos ficou restrito a poucas associações. Ele deveria contaminar toda a sociedade. Ele também não pode se misturar com ações de humanismo melodramático, como abraçar a Rocinha. Ou promover a "paz", de forma abstrata. O bom debate sobre direitos humanos não é manezinho . Não são os direitos humanos que aparecem nos estudantes da PUC do "Tropa de Elite". Esse grupo existe, mas é um movimento de direitos humanos bastante ineficaz. O bom movimento de direitos humanos deve saber que é importante prender e punir criminosos e deve procurar soluções eficazes para a política de segurança.
Quanto ao filme e à trilha: se a trilha sobe no trecho dos direitos humanos é pelo mesmo motivo de sempre. O filme é todo construído num diálogo, com o jeito como os policiais narram o filme. É como se a narração do filme fosse construída a partir do ponto de vista dos policiais. E eles acham esse debate inútil. Vamos ampliar esse debate.

Não é irônico que o filme seja exibido na TV no dia em que se revela a suspeita da atuação de um grupo de extermínio em Osasco?
Essa notícia mostra que, ao contrário do que a corporação fala, a polícia paulista continua matando. Com certeza os policias de meu filme não têm nada a ver com grupos de extermínio. Mas a cultura da corporação, que o filme retrata, continua causando fatos lamentáveis como esse.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Crítica Marcelo Coelho.

O crítico Marcelo Coelho compareceu ao debate sobre o Jesus no Mundo Maravilha na Casa Gafanhoto e além de fazer uma excelente intervenção junto ao querido Jorge Cunha Lima também publicou em seu blog um texto falando sobre o Jesus.

Segue abaixo o texto publicado originalmente no blog do Marcelo. Para ler mais coisas que ele escreve é só clicar aqui.

Jesus no Mundo Maravilha por Marcelo Coelho
Na próxima sexta-feira será exibido na TV Cultura, às 22h 40, um documentário bem interessante. Chama-se “Jesus no Mundo Maravilha” e foi dirigido por Newton Cannito. Participei ontem de um debate sobre o filme.



Newton Cannito conseguiu entrevistar longamente três ex-policiais militares. Um deles perdeu a conta de quantos “bandidos” matou. Algo entre 80 e 100. Outro foi expulso da corporação e faz agora serviços autônomos de segurança na Zona Leste. O terceiro converteu-se a Jesus.



Sem assumir de jeito nenhum o ponto de vista dos policiais, o documentarista ganhou total confiança de seus personagens, que se mostram, como todo mundo, pessoas complexas, dotadas de suas próprias justificativas para o que fizeram, mas sobretudo capazes de sorrir, brincar, deprimir-se também.



Para maior distanciamento emocional, quase todas as cenas são rodadas num parquinho de diversões, onde o ex-cabo Jesus cuida da lei e da ordem. No debate, Newton Cannito conta que não tinha um programa muito claro sobre o que filmar. Mas que sabia de uma coisa: no momento em que pudesse filmar os policiais andando de carrossel, o seu documentário estaria terminado. Seria o sinal de que eles já não tinham mais nada a dizer; que estavam totalmente “desarmados”, vá lá a expressão, diante da câmera.



Para tornar as coisas mais estranhas, um palhaço, que ganha a vida divertindo as crianças do parquinho, quer de todos os modos participar do filme. É bem-recebido pela câmera, e termina participando de uma verdadeira mesa-redonda informal, na lanchonete do parque, com os ex-policiais, com três advogados defensores dos direitos humanos, e com um casal, cujo filho foi assassinado à queima roupa numa blitz da PM.



Sem entrar em nenhum dos cacoetes do realismo brutal-chocante, tão comuns na literatura da violência e da periferia, “Jesus no Mundo Maravilha” é muito perturbador e impressionante. Não pelo que mostra de ações policiais, mas pela ausência dessas cenas. Ficamos conhecendo, sem discurso, e sem demonização, a mentalidade dos policiais. Não é um filme contra a política dos direitos humanos, claro. Mas ajuda a entender por que essa política conhece tantas dificuldades na hora de ser posta em prática.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A conversão do crente

Como um justiceiro se transforma em um homem de Deus? Isso é possível?

Ouçam a opinião de Pereira, que ao viver uma experiência sobrenatural reavaliou suas opções como policial.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Clique no convite abaixo!

Pré estréias do Jesus no Mundo Maravilha no Rio e em São Paulo. Entraida gratuita, imperdíveis!

Abraço!